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sexta-feira

Mãos aquecidas, coração frio

Intriga-me pensar o quanto é mais difícil falar do que me convém. Essas tortas indiretas para referir-me a alguém, e o momento em que me surge esta necessidade de roubar palavras; as que eu pertenço, já não me cabem mais.

"O sono ataca-me o corpo nestes dias de inverno. Não fecho a janela, porque gosto do cheiro que a noite trás". E já nem sei se é mais frio lá fora ou cá dentro do meu peito.
As cores em que a madrugada se revela, trazem à tona a morosidade que insiste em varrer minha mente; ainda em tempo de fechar os olhos... mas minha teimosia em desmantelar-me, poupa-me o sono e só as lembranças de você testemunham mais uma dessas madrugadas se tornando dia diante do meu vago olhar. - Mãos frias, coração aquecido. Quase posso ouvir gargalhadas surgindo do escuro ao perceber que fugi à regra, mas o silêncio da noite me ensurdeceu desde que chegou. É doentio pensar, mas mesmo com a indiferença de todos aqueles sem consciência agora, a lua se esforça. Só me preocupo, pois sei que não faria o mesmo. Não faço o mesmo. Não consigo me empenhar diante do seu desprezo e talvez, também seja difícil na ausência dele.

Já é tarde, preciso me deitar,  preciso deixar que o sol invada, falsamente sorrateiro, e se acredite surpresa por algumas horas.
Amanhã de manhã, prometo transbordar candura e aquecer meu coração, mesmo que para isso, minhas mãos precisem estar frias.


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