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quinta-feira

Ambiguidade à Quatro

Você está só, solitário, você é pura solidão, alguém sozinho sempre, quase sempre. E eu nunca estive perto o suficiente pra poder dizer. Contar pra você. Te mostrar que está só. E sou só. Sou só eu, apenas eu sei. O que diria se te desafiasse a aceitar que as pessoas percebem, por mais que não se encorajem à dizer? _ como eu. Todos. Todo mundo nota. Qualquer um já sabe. Você é alguém só. Alguém com um sorriso só. Um sorriso estático e impermeável, sem intensidade definida. Com um fim próximo, um fim rápido. O mais doloroso possível. Ninguém diz. Ninguém corre o risco de manchar o próprio sorriso falso. Qualquer um não diria. Não descordaria de suas feições de vidro. Não. Com toda certeza, concordarão. Eles vão aceitar, vão apoiar. O melhor é não descobrir, não conhecer, não saber. Pra não ter que questionar esse seu brilho no olhar. Esse. Esse mesmo brilho de sempre. Inconfundível, amargo e mentiroso. Alguém iria querer ter que dizer? Não. Para evitá-lo, fingem não perceber. Não querem que você descubra que é só. Só rodeado de solidão, sozinho. E estamos a sós. Somos só. Só eu e você, todos. Todos são solitários. Todos eles. Todos estão a sós, são pura solidão, sozinhos sempre, quase sempre. Você ousaria lhes dizer? Não. Ninguém ousaria. Se revelar o humano por detrás de suas mascaras de vidro, irá quebrar a tua própria. Não. Você não quer isso. Não quer ter que admitir. Você não vai dizer, não vai contar que sabe, sabe tudo o que eles sabem. É melhor não se expôr. Vocês se merecem. Merecem tudo isso. Tudo. Toda redundância e ênfase vazia. Vocês merecem as próprias farsas e não são dignos de que alguém ouse libertá-los. Ninguém diria. Qualquer um não vai contar. Mais eu sei. Você sabe. De alguma forma você sabe que não lhe odeio por isso. Posso ver por detrás. Eu consigo. Nós sabemos, nos entendemos. É ousado se esconder o tempo todo. É difícil, é doloroso e não é possível voltar atrás sempre que quiser. Não é. Não abriríamos mão um do outro, precisamos disso. De um brinquedo quebrado para despertar nossa imaginação. Algo como você, como eu.  A minha própria farsa foi menor que a fraqueza. E você não me odeia por isso, não é? Gosto de feições guardiãs de segredos, coragem, e ladrões de sonhos, mas temo a palavra ousadia ter se repetido demais em meio à isso. Tenho medo que você tenha se repetido demais em meio à tudo.



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