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quarta-feira

Fobia de Coragem


Me afeiçoei ao ninho da gaiola e imprudente, fiz refúgio no que era incômodo. Tive as asas cortadas meticulosa e sorrateiramente. Fui condescendente e cedi espaço para o vazio me preencher e já não detenho nada em mim além dessa grande e pesada fissura que cresce tanto quanto me debato.

Não me lembro a sensação de alçar voo, não me lembro como sair do chão. Mesmo com a porta aberta, mesmo sabendo que aqui só há o abismo que me consome, tenho medo. Medo estarrecedor de ir. Ir sem saber para onde. Essa inquietação, a dúvida, não conseguir decidir se o desconhecido é pior do que o terror que já me é familiar, frustra qualquer motivação que eu tenha esperança de cultivar.

Perceber que minha ambição pode ferir, que sou a única seduzida pela brisa que me toca pelas grades, me corrói e a culpa me esmaga. Pois nenhum de nós pode se mover sem descarregar nosso pesar na bagagem do outro. Os sentimentos não desaparecem e quem se liberta, condena. É impossível seguir em frente sem deixar algo para trás, é impossível pairar mais alto sem soltar o que nos pesa as asas. E é impossível não deixar seu legado sob os ombros de quem fica.

E mesmo que a empatia me impeça de voar, mesmo que eu queira incumbir todas as dores apenas a mim, mesmo que eu digira minhas dúvidas e me negue a importunar outro com meu desespero, o que realmente me mantém cativa e petrificada no meu abrigo escuro, é a ideia de que ainda que desprendida e alcançando o céu azul, sem fragilidade e com vigor, eu esteja carregando comigo tudo o que me abate.

Tenho medo, muito medo, pavor de que mesmo do lado de fora me sinta assim. Tenho medo de que todo esse tempo, essas grades tenham me protegido e impedido de descobrir que eu sou meu próprio veneno e minha mente não se abranda pela liberdade. Tenho medo de deixar a gaiola e me descobrir prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão. Tenho medo de ser minha própria prisão.

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