Guia

terça-feira

Cinzas

Eu me sabotei, joguei tudo pro alto com a certeza de que me ergueria renovada das cinzas. Bom, as cinzas se tornaram lama e eu me afundei. Eu poderia ter feito qualquer coisa, tinha o mundo em minhas mãos e talvez esse tenha sido meu erro. Acontece que, quando temos confiança demais em nossa capacidade e habilidade de recomeçar, não vemos problema em desistir de tudo e eu o fiz, várias vezes, até que não me restasse mais nada e não previ isso. Me superestimei ou apenas perdi a fórmula? Ninguém saberia dizer.

Eu costumava ter esses olhos que absorvem tudo, que aprendem, imaginam, prevêem, criam. Agora são negros, vazios e desmotivados. Não pude mais achar o que os motiva e a lama está prestes a se tornar cimento e me sepultar onde eu deveria renascer. Quanto mais me debato mais me afundo, tudo se afasta, me perco, esfrio, escureço.  Já nem sei mais do que sou feita, me sinto fluida, homogênea, parte de algo que não se faz inteiro. Sem razão. Como se eu fosse alguma coisa, apenas porque é impossível não ser nada.

E eu continuo desistindo, desfalecendo, mesmo agora sabendo que não posso voltar, mesmo sabendo que tudo o que deixo pra trás não será substituído, deixa de existir, deixo de existir. Partes de mim vão desaparecendo, eu assisto acontecer, mas não sinto. O cimento tem se tornado concreto e o concreto se expande e eu me encolho.  Já não sou vista, já não se ouve minha voz, não se sente minha presença. Não me reconheço e não me reconhecem. As cinzas se tornaram lama, a lama se tornou cimento, o cimento se tornou concreto e eu me tornei as cinzas. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário