quinta-feira
A quem couber
Todos os dias eu me forço a levantar da cama, e tento não pensar no que tenho que fazer nem no que de fato farei. Deixo a mente em branco e tiro o pijama sem brilho nos olhos. Checo o celular, as mensagens, a hora. Em segundo plano na minha mente, começo a decidir quem serei hoje. Sigo para a cozinha até perceber que não tenho fome e já começo a sentir o cheiro do almoço. Apesar de não me lembrar que horas são, volto para a cama. Leio. Escrevo. Durmo. Acordo e começo a cantarolar alguma melodia que me vem à cabeça durante o sono sem sonhos. A tarde paradoxal se estende infinitamente acima de mim e em um instante já é noite. Começo a me vestir para ir a faculdade. Passos lentos até a estação do metrô. Desritmados. Como o resto do dia. Chego a minha sala e percebo que estou com fome. Tenho tempo suficiente para comer algo em algum lugar próximo e neste percurso percebo que estou vazia. Não por aquela ser a primeira refeição do meu dia, mas porque falta estímulo em mim. Me falta um motivo torpe como todos têm para justificar o meu dia deprimente. E tudo aquilo que coloco em segundo plano de manhã começa a explodir em mim. Passo o dia inconsciente. Anestesiada. E naquele pequeno trajeto de volta a minha sala uma dor lateja em meu peito, minha cabeça dói e minha mente ferve. Sempre culpo aqueles rostos. Todos aqueles rostos que mais se parecem um espelho de mim. Todos têm a mesma expressão solitária. Minha dor se torna comum. E piora quando admito isso. Para fugir destes olhares, finjo prestar atenção em uma lição qualquer, enquanto os professores fingem não perceber que estou distraída. Eles fingem ter certeza do que é melhor pra mim e eu finjo acreditar cegamente no que dizem. Na volta para casa, percebo que ainda não decidi quem seria, mas não conseguiria algo melhor do que fui. Tomo remédios para a dor de cabeça e me deito. As lágrimas começam a escorrer desavisadas e o mal-estar aumenta com o nó na garganta. Algumas horas depois tomo entorpecentes para o sono, mais morfina para a dor de cabeça e me forço a deitar na cama, repetindo que preciso descansar, mesmo sabendo que meu cansaço não se deve à rotina, mas à vida. Tento não pensar no que tenho que fazer nem no que, de fato, farei. Deixo minha mente em branco e coloco o pijama com brilho nos olhos. Checo o celular, as mensagens, a hora e largo minha dor latente em segundo plano na minha mente e todos os dias eu me forço a levantar da cama. E finjo não saber que será igual. Finjo que quero. Finjo que vivo.
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